Por que eu acho que o meu negócio vale muito mais?

New York #30

Uma das dúvidas mais comuns de todos os empresários é quanto vale a sua própria empresa. Perguntados de forma direta, “por quanto você venderia a sua empresa” a grande maioria engasga e, quando voltam a relaxar, normalmente acusam a sua ignorância sobre o valor do negócio, dizendo que nunca pensaram no tema. Uma pequena parte, porém, tem um número na cabeça e este é, via de regra, maior do que a realidade mercadológica apresenta.
O conceito de que o valor de uma empresa tem vinculo direto com a sua capacidade de geração de caixa é ainda um conceito pouco entendido no meio empresarial. Há uma série de crenças que atrapalham a correta visão do que, de fato, influencia a valoração de um negócio. Os erros mais comuns são:

Estoques: o entendimento de que os estoques de uma empresa devam ser acrescidos a um estudo de valor de uma empresa é um equívoco bem típico. Na prática, os estoques compõem os ativos de uma organização e fazem parte de um todo que permite à mesma a geração de fluxo de caixa. Assim sendo, considerar os estoques como algo à parte para efeito do cálculo do valor de um negócio é duplicar o seu efeito. Embora esta seja a regra, há uma exceção que precisa ser observada com atenção. Ela ocorre em casos bem específicos nos quais a empresa está com uma posição de estoques fora do “normal” (acima ou abaixo). Como exemplo podemos citar uma situação onde foi feita uma compra de materia prima acima da necessidade típica da empresa para aproveitar uma promoção de preços de um determinado fornecedor. Neste caso a empresa diminuiu o seu caixa e o “imobilizou” na forma de estoque excedente. Cabe aí um ajuste no valuation da empresa, considerando-se este excedente como se caixa fosse (ver item Caixa e Dívidas abaixo).

Maquinário e Ativos Fixos: da mesma forma que os estoques, estes formam o conjunto de ativos que permitem a geração de caixa da empresa e, portanto, já estão considerados de forma indireta num cálculo de valor por fluxo de caixa descontado. A confusão aqui se estabelece quando o preço destas máquinas e outros ativos fixos superam o próprio valor calculado para o negócio. Isto nada mais significa que estes ativos não estão sendo utilizados de forma eficiente e que o fluxo gerado pelo negócio não é suficiente para superar os seus valores. Neste caso, se a decisão for a de vender a empresa, o melhor a fazer é vender os ativos e fechar o negócio!

Imóveis: vale o mesmo raciocínio acima feito para máquinas e outros ativos fixos, com um agravante: é bem comum que o imóvel (ou imóveis) utilizado por uma empresa pertença aos sócios da mesma (na pessoa física) e que não haja a cobrança de aluguel pelo mesmo. Desta forma o fluxo de caixa que dá origem ao valuation da mesma precisa ser ajustado para se levar em conta este custo do negócio, que existe mesmo que não apareça no balanço da empresa. Afinal, na hora de uma eventual venda este imóvel sera tratado à parte – ou será vendido pelo seu valor de mercado ou alugado para o comprador.

Marca: de tempos em tempos nos deparamos com matérias em jornais e revistas de negócios nas quais é mostrado o ranking das marcas mais valiosas, normalmente liderado pela Coca-Cola (embora o Google já a tenha ultrapassado em alguns estudos). Estas matérias criam a sensação no empresário de que a marca deva ser avaliada de maneira isolada do negócio. Novamente o conceito de que ela (a marca) faz parte dos ativos que permitem a geração de caixa (base do valuation) deve ser lembrado. A pergunta que se deve fazer, caso se deseje isolar o quanto a marca contribui para esta geração, é: qual seria a minha receita (e resultado) caso eu vendesse o mesmo produto sem o uso da marca? Imaginem qual seria o volume e o preço que se poderia cobrar por um refrigerante de cola que não ostentasse a marca Coca-Cola? Muitos já tentaram e não obtiveram os mesmos resultados!!!

Patentes: vale o mesmo raciocínio que o utilizado para a marca, com a exceção de patentes que ainda não foram incorporadas ao processo produtivo da empresa e que poderiam gerar um fluxo de caixa adicional. Cabe neste caso fazer a estimativa deste adicional e acrescentá-lo ao fluxo de caixa utilizado para o valuation (que normalmente considera um período de 5 anos).

Caixa e Dívidas: estes sim são componentes de um balanço de uma empresa que devem ser considerados à parte de um exercício de valuation baseado em fluxo de caixa descontado, já que a sua posição (mais ou menos caixa e/ou dívida) não influencia o resultado. Para quem quer conhecer o jargão correto utilizado pelos especialistas, existem dois valores para uma empresa. O primeiro, conhecido como “Enterprise Value ou EV”, é aquele derivado do exercício de projeção e desconto do fluxo de caixa de uma empresa. O segundo, chamando “Equity Value ou EqV”, é calculado pela diferença entre o Enterprise Value e a Dívida Líquida de uma empresa. Esta Dívida Líquida nada mais é que a diferença entre Caixa e Dívidas. Em um exemplo educativo, suponhamos que o EV de uma empresa seja de R$ 100 milhões, que ela possua um Caixa de R$ 20 milhões e dívidas que somam R$ 10 milhões. O Equity Value desta empresa é portanto R$ 110 milhões – este é o preço que um comprador deveria pagar para assumi-la, já que no dia seguinte herda o fluxo de caixa futuro dela (EV) mas também assume a dívida e o caixa da mesma.

O correto entendimento dos pontos acima são, portanto, fundamentais para se entender o correto valor de um negócio. Empresários que falham neste sentido sempre acham que os seus negócios valem mais que a realidade e muitas vezes perdem oportunidades de realizar o valor de seus ativos a um preço justo de mercado.

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