Fique de olho no timing

Esta formação rochosa foi fotografada no Arizona, USA. Seu formato e textura, conjugados com o pano de fundo de nuvens semi-carregadas cria uma composição forte e desafiadora.

Em um dos nossos últimos artigos, falamos sobre a importância de organizar um processo competitivo pelo ativo no momento da sua venda. Isto é uma das principais ferramentas para maximizar o valor a ser capturado na transação. Desta vez vamos explorar outro fator importante de ser levado em consideração ao se vender uma empresa – o momento pelo qual o setor de atuação da mesma está passando. Determinadas janelas de oportunidade não devem ser desperdiçadas. Vamos dar um exemplo.

O setor de ensino superior passou por uma transformação recentemente. Nos últimos 5 anos o setor viu 82 operações de M&A serem realizadas no que foi umas principais consolidações de mercado ocorridas na história empresarial recente do país. De acordo com um estudo da CM Consultoria, em 2011 os 14 maiores grupos do setor detinham 11% do volume total de matrículas; em 2015, os 10 maiores já detinham 46%. Este período de efervescência no ensino superior criou oportunidades para alguns empresários do setor venderem seus negócios por múltiplos que dificilmente se repetirão no futuro. Em 2010, no início deste movimento, a Estácio adquiriu a FAA e seus 4.500 alunos por R$ 20 milhões – o equivalente a R$ 4,4 mil por aluno. A mesma Estácio, no auge da febre de consolidação do setor, em 2014, adquiriu a Literatus por um múltiplo de R$ 10 mil por aluno – valor 2,2x superior ao da FAA. Um dos motivos: timing.

Como nos exemplos sobre o valor de um processo organizado e competitivo sobre os quais falamos em  nosso artigo anterior, um elemento extra-financeiro cumpre um papel determinante no valuation do negócio. Sim, os fundamentos operacionais e financeiros da empresa continuam sendo peças-chave para definir seu valor, mas a avaliação precisa ir além disto. A mesma empresa, com os mesmos números e indicadores, pode ter dois valores distintos no tempo. Depende do quão aquecido e “comprador” está seu setor de atuação.

Um outro setor, menos óbvio e ainda sob menos holofotes do que o ensino superior, parece estar entrando em um momento de consolidação – o de sorvetes. De 2013 para cá, 4 transações, todas elas envolvendo fundos de private equity, foram realizadas. Talvez a mais noticiada tenha sido a venda de 20% da Diletto para o Innova Capital, que ganhou notoriedade por ter entre seus sócios o investidor Jorge Paulo Lemann. Porém, quem está liderando os maiores negócios no setor é o H.I.G. Capital, fundo norte-americano que já adquiriu duas das principais fabricantes regionais do país (Creme Mel em GO e Zeca’s no NE) e assumiu o terceiro lugar em market share no mercado, atrás apenas das gigantes Kibon e Nestlé. Os empresários do setor devem ficar atentos, este tipo de janela não se abrirá em muitas oportunidades ao longo de sua história empresarial. Às vezes é uma vez apenas!

O aumento do número de transações comparado ao histórico, a entrada de fundos de private equity e os múltiplos negociados são alguns dos indicadores que servem de termômetro para avaliar a “temperatura” de determinado setor. Porém, fazer a correta leitura destes indicadores e avaliar o melhor momento de aproveitá-lo não é simples. Demanda conhecimento técnico, tempo e energia para realizar pesquisas e análises, experiência em entender a dinâmica dos movimentos de consolidação, além de uma rede de relacionamentos no mundo de M&A, que pode prover informações valiosas. Quem não conhece um amigo que já fez um maravilhoso (ou um péssimo!) negócio com um imóvel por ter acertado (ou errado!) o timing de vendê-lo? Com empresas esta lógica também vale, mas você não deve ter outra chance se errar na primeira.

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