Vendi minha empresa. E agora?

Esta foto não compõe uma série propriamente dita, mas está inserida na categoria de fotografia de rua que é a que mais gosto. Os flagrantes obtidos enquanto se caminha (ou se flana como diziam os parisienses) acabam tendo o humano como ponto de convergência.

Em nossa última newsletter falamos sobre o que chamamos de “síndrome da 2a feira” sob a ótica de quem compra uma empresa – ou seja, os diversos desafios que se apresentam logo após o fechamento da transação e da respectiva e justa celebração. Hoje iremos abordar o “outro lado da moeda”: a perspectiva de quem vendeu uma empresa e tem que lidar com os seus próprios e específicos desafios. Nossa abordagem aqui irá se basear no ponto de vista de um empresário que vende o seu único negócio, já que aqueles que possuem diversas atividades ou mesmo corporações que se desfazem de algum ativo apresentam desafios bem distintos e continuam com as suas respectivas operações remanescentes.

Já ouvi de muitos donos de empresas que eles não pensam em vender os seus negócios – mesmo diante de oportunidades ou situações mercadológicas onde o senso comum recomendaria a venda – pois não sabem o que fazer com o dinheiro e, mais importante e desafiador, como ocupar o seu tempo. Embora tenhamos comentado sobre este ponto em um antigo artigo que publicamos (e que ainda é bem válido) achamos que era importante desenvolver mais sobre o tema e é o que fazemos a seguir.

Embora o destino de seu dinheiro e de seu tempo pareçam temas desconexos, na verdade eles não são, quer ver? Ressalvamos que a nossa especialidade não é a de gestão de recursos financeiros, mas como participantes indiretos do mercado de capitais, temos algumas opiniões formadas com base em experiência própria e de clientes e ex-clientes a quem assessoramos. Sendo bastante pragmático é pouco provável que, tendo construído uma empresa ao longo de alguns anos até que a mesma tenha sido vendida, você queira arriscar os seus recursos em atividades com perfil de risco arrojado, provavelmente preferindo preservar parte de seu patrimônio em renda fixa de forma a garantir seu padrão de vida e o de sua família. Mas tendo sido um empresário de sucesso é também pouco provável que você consiga ficar em casa (mesmo que seja depois de um longo período de viagens e descanso) olhando para a tela do seu banco e vendo seus recursos renderem. Você tem experiência empresarial e o “comichão” empreendedor vai atiça-lo mais cedo do que tarde. Algumas alternativas me vem a mente:

1) Investir em um novo negócio próprio: é possível que durante a sua jornada você tenha identificado alguma(s) oportunidade(s) que julgou interessante mas para a qual não havia recursos disponíveis para investimento. Talvez seja a hora de tirar a ideia do papel e coloca-la em prática. Não é preciso ficar limitado a negócios grandiosos, às vezes é algo tão simples quanto montar um pequeno café para poder fazer do jeito que, como cliente, sempre quis ser atendido…

2) Comprar uma participação em uma empresa existente: se montar e operar um negócio é muito trabalhoso para esta etapa da sua vida, comprar uma participação de um negócio já rodando pode ser uma boa opção. Sua contribuição, além da financeira, pode se limitar a um assento no conselho de administração ou consultivo e ainda assim lhe permitir a oportunidade de viver os desafios do meio empresarial, conhecer novos setores e expandir seu networking.

3) Tornar-se um investidor-anjo: o ecossistema de startups tem amadurecido e oferece oportunidades de investimentos em diversas e vibrantes empresas nascentes. O acesso a tais oportunidades já funciona de forma estruturada através de associações como a Anjos do Brasil, plataformas online como a AngelList e fundos de venture capital de forma indireta, tanto dentro quanto fora do país. Mais do que seu capital, é uma forma de disponibilizar seu conhecimento e experiência na formação de jovens empresários e negócios e ainda poder multiplicar seu investimento a taxas maiores do que no mercado financeiro tradicional.

4) Investir em algum empreendimento social ou filantrópico: suponha que você adora jogar tênis. Não seria interessante dedicar recursos ou até mesmo seu tempo para um belo projeto que utiliza este esporte para a formação de crianças carentes? Você, talvez, tenha tido a oportunidade de viajar o mundo e notar o valor que recebem a arte e a história em países de primeiro mundo. Será que não há oportunidade de apoiar e revitalizar a arte e a história de algum lugar com que simpatize ou que marcou sua vida? Será que não há formas de dedicar seu recursos monetários e de tempo para engrandecer a formação de novas gerações e deixar um legado ainda mais amplo?

5) Doar parte de seus recursos para uma causa com que se identifique: tomara que não, mas você já teve algum ente querido que sofreu por alguma doença ainda sem cura ou mal tratada por carência de recursos? Será que o destino de recursos para uma causa relevante com a qual se identifique por razões pessoais não pode lhe dar mais paz e alegria do que qualquer rendimento financeiro? Que preço tem ser o responsável por ter permitido à alguém viver mais alguns anos? Ou por ter conseguido um sorriso de alguém que não sorria há anos? Fome, câncer, autismo, velhice solitária… o número e natureza de aflições humanas que podem ser alvo do seu dinheiro e bondade são incontáveis, a escolha é sua.

A verdade é que existe um mundo enorme fora da empresa na qual você viveu por tanto tempo e, por mais que seja difícil reconhecer, um mundo bem interessante em suas oportunidades e que provavelmente você não teve tempo para enxergar de forma detalhada e precisa enquanto trabalhava horas a fio construindo seu negócio. Do alto de sua independência – financeira e intelectual – este é um momento libertador e que pode lhe trazer oportunidades de realização pessoal maiores do que poderia suspeitar num primeiro momento.

Respeito as opiniões individuais e creio não haver verdades absolutas, principalmente naquilo que se refere à forma como cada um gosta de viver. Mas sendo um estudioso no assunto de como ter, filosoficamente, uma “boa vida” a minha conclusão é que esta não pode ser alcançada sem um equilíbrio entre os diversos papéis que desempenhamos e uma saúde adequada. Use seu tempo para fortalecer ou até mesmo construir relacionamentos e cuide de você, melhor do que fazia quando trabalhava tanto. A vida é uma só e merece ser vivida em plenitude!

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