
O mercado de máquinas agrícolas, avaliado em R$ 66,7 bilhões, atrai grandes investidores e operações de fusão. A aposta não está apenas na venda do equipamento, mas na receita recorrente gerada pela manutenção, peças e assistência técnica ao produtor rural ao longo dos anos.
O mercado bilionário de máquinas agrícolas entrou no radar do M&A (Fusões e Aquisições).
Pesquisa da ZAXO revela por que fabricantes, concessionárias e empresas de pós-venda de máquinas agrícolas passaram a concentrar o interesse de investidores. Um mercado de R$ 66,7 bilhões e uma frota que deve chegar a 1,8 milhão de máquinas até 2030 colocam o setor de máquinas e implementos agrícolas no radar dos investidores. Os números, levantados pela ZAXO, boutique brasileira de M&A, mostram um mercado que combina escala, demanda e espaço para novas operações.
Para quem compra uma empresa, porém, o tamanho do mercado é apenas um indicativo de que o mercado vai bem. O que determina a atratividade de uma aquisição é quanto valor aquele negócio pode gerar além das máquinas.
O setor de máquinas agrícolas tem uma característica importante nesse cálculo: a receita não precisa terminar na venda do equipamento. A relação com o produtor pode continuar por anos, ampliando as fontes de receita de quem adquire o negócio, explica Jefferson Nesello, sócio-diretor da ZAXO.
Assim, quando um investidor olha para esse mercado, não está comprando apenas uma revenda ou uma fabricante. Ele avalia tudo o que vem depois da venda da máquina, como peças, assistência técnica, manutenção e o relacionamento de longo prazo com o produtor.
Sendo assim, quanto mais etapas da relação com o produtor uma empresa consegue monetizar, menor tende a ser sua dependência de uma única venda e maior o interesse do mercado de M&A, diz.
Isso significa que empresas com faturamentos semelhantes podem ter valores muito diferentes aos olhos de um comprador. A análise considera, sim, fatores como qualidade da gestão, geração de caixa, governança, concentração de clientes, eficiência operacional, mas, além disso, receita recorrente, explica.
Estoques elevados ou envelhecidos, concentração de clientes e fornecedores e dependência excessiva do fundador, por exemplo, podem reduzir o valor percebido pelo comprador.
Neste caso, não é só receita e lucro que contam para uma boa avaliação do negócio. Se ela possui uma operação forte de pós-venda, contratos recorrentes, boa relação com produtores e capacidade de gerar caixa de forma previsível, ela passa a ser muito mais interessante para quem compra, afirma Nesello. Quanto mais etapas da relação com o produtor uma empresa consegue monetizar, menos dependente de uma única venda e mais atrativa ao mercado ela fica e pode gerar uma série de sinergias com outras operações do agro, como por exemplo em grãos e insumos, complementa.
Esse olhar ajuda a explicar por que o M&A vem sendo usado no setor também como uma estratégia de crescimento. Em vez de construir novas operações do zero, empresas podem recorrer a aquisições para ampliar rapidamente sua presença regional, ganhar escala e complementar a oferta de produtos e serviços.
Um exemplo é a aquisição da Pivot pela Cocari, anunciada em 2026. A operação incorporou 12 lojas nos estados de Goiás, Minas Gerais, Bahia e Tocantins e ampliou a presença da cooperativa na distribuição de máquinas agrícolas. Com a aquisição, a Cocari passou a figurar entre as maiores redes de concessionárias Case IH do Brasil e se tornou a maior revenda Lindsay da América Latina.
Outro movimento ocorreu em 2025, quando o Grupo Fuganti adquiriu 100% da Rodomac Tratores, concessionária New Holland em Santa Catarina. Com a operação, a Agro Divel dobrou sua rede de lojas, passando de três para seis unidades, ampliou sua cobertura para 134 municípios e reforçou a busca por escala e presença regional.
Cada operação mostrou uma estratégia diferente. No Centro-Oeste e no Centro-Norte, geralmente o interesse está ligado à expansão agrícola e ao avanço da mecanização. Já em mercados mais maduros, como Sul e Sudeste, a oportunidade está em ampliar a cobertura territorial, a carteira de clientes e a escala de atendimento, explica Nesello.
Para ele, esse processo de consolidação também pode abrir espaço para empresas que estejam passando por momentos de maior pressão financeira. Temos observado empresas excelentes deixando o mercado não porque perderam competitividade, mas porque enfrentaram uma combinação de fatores como crédito restrito, aumento dos custos e pressão sobre o capital de giro. Para investidores estratégicos, isso pode criar oportunidades de adquirir bons ativos e gerar valor a partir de uma reestruturação, conclui.