
Levantamento da Zaxo M&A Partners mostra 440 negociações entre 2017 e 2025, impulsionadas pela transformação digital das profissões
O mercado de edtechs recebeu US$ 883,3 milhões em investimentos e somou 440 operações de fusões e aquisições entre 2017 e 2025, segundo levantamento da Zaxo M&A Partners com dados da Distrito. O estudo relaciona o avanço à transformação das profissões impulsionada pela inteligência artificial e à busca por formação profissional mais rápida.
De acordo com Jefferson Nesello, sócio-diretor da Zaxo, o interesse de investidores reflete uma mudança na dinâmica da educação e da formação profissional. “O mercado de educação acompanha uma transformação profunda do mercado de trabalho, impulsionada principalmente pela digitalização da economia. Novas funções e competências surgem antes mesmo de integrarem as grades curriculares tradicionais. Como resposta, plataformas digitais e escolas especializadas passaram a desempenhar um papel cada vez mais relevante na formação profissional. Esse movimento levou universidades e grandes grupos de ensino superior a expandirem seus ecossistemas, incorporando escolas especializadas, plataformas de ensino, comunidades de aprendizagem, cursos de curta duração e programas corporativos de qualificação”, avalia Nesello.
Segundo o executivo, o setor de educação cresceu historicamente sob uma lógica previsível, em que as universidades ampliavam campus, vagas e número de alunos matriculados. “Tradicionalmente, o valor de uma instituição de ensino era medido pelo tamanho do campus e pelo número de alunos. Hoje, o diferencial está na capacidade de ensinar, com rapidez, as competências que o mercado já demanda, mas ainda não consegue encontrar nos profissionais.”
Ainda conforme Nesello, embora cinco anos sejam suficientes para concluir uma graduação, esse período pode ser longo demais diante da velocidade das transformações da economia digital. Parte do conhecimento adquirido no início do curso, segundo ele, pode já estar desatualizada ao final da formação.
O Fórum Econômico Mundial chega a conclusão semelhante no estudo Shaping the Future of Learning: Education Readiness for the Age of AI. O relatório afirma que governos, universidades e empresas terão de rever seus modelos de ensino para preparar profissionais para um mercado em constante transformação. Conforme o Future of Jobs Report 2025, também do Fórum Econômico Mundial, 39% das competências exigidas pelo mercado deverão mudar até 2030, enquanto 63% dos empregadores afirmam ter dificuldade para encontrar profissionais qualificados.
Para Nesello, esse cenário ajuda a explicar o avanço das operações de M&A no setor. “O resultado é uma ruptura econômica, pois, em vez de desenvolver novas competências internamente, grandes grupos educacionais passaram a buscar crescimento comprando empresas que já nasceram atendendo às novas demandas do mercado”, diz.
A consolidação aparece em operações recentes. Em 2026, a indiana upGrad anunciou a compra da rival Unacademy, empresa conhecida por oferecer cursos preparatórios para vestibulares, concursos e capacitação online. No Brasil, a Yduqs adquiriu, em 2025, o Centro Universitário Unifametro por R$ 62 milhões, movimento que reforçou a expansão regional e a busca por instituições com forte atuação em cursos de alta demanda, especialmente na área da saúde.
Diante desse cenário, escolas focadas em inteligência artificial, programação, ciência de dados, cibersegurança, negócios digitais, educação corporativa e formação executiva passaram a ocupar espaço que, até poucos anos atrás, pertencia quase exclusivamente às universidades. O mesmo estudo, com dados reunidos pela Distrito, HolonIQ e McKinsey, mostra que, entre 2019 e 2024, as empresas de ferramentas de estudo lideraram as operações de M&A, com 25 transações, seguidas pelos segmentos de gestão educacional e plataformas de ensino, com 14 operações cada, enquanto soluções voltadas à viabilização do ensino somaram cinco aquisições.
Um exemplo citado no levantamento é o Grupo G4, voltado ao empreendedorismo e ao mercado empresarial, que em poucos anos de atuação construiu uma plataforma com presença digital e física reunindo centenas de milhares de alunos, alcançando seu primeiro bilhão de faturamento em pouco mais de seis anos de mercado.
Para Leonardo Grisotto, sócio da Zaxo M&A Partners, o perfil dos ativos mais disputados também mudou. “O investidor não compra apenas faturamento, ele avalia tecnologia, especialistas, reputação, relacionamento com alunos e capacidade de lançar novos cursos rapidamente. São atributos que passaram a fazer diferença nas negociações”.
Grisotto avalia ainda que esse cenário explica por que empresas altamente especializadas despertam interesse mesmo sem competir diretamente com universidades tradicionais. “Muitas dessas empresas encontraram uma forma mais rápida de responder às mudanças do mercado, e quem consegue transformar conhecimento em solução prática ganha relevância e passa a ser visto como um ativo estratégico”.
Segundo o levantamento, esse movimento também ampliou o perfil dos compradores. Além dos grandes grupos de ensino, fundos de private equity, empresas de tecnologia e plataformas de educação corporativa passaram a utilizar aquisições para acelerar suas estratégias de qualificação de profissionais.
“À medida que a inteligência artificial, a automação e novas tecnologias continuarem redesenhando profissões, a demanda por empresas capazes de formar talentos com rapidez tende a crescer e, com ela, o interesse por novas operações de M&A no setor”, conclui Grisotto.