Brazil Economy - Infraestrutura para IA movimenta US$ 69 bilhões e lidera nova onda de aquisições

Expansão dos data centers no País e da demanda por energia limpa coloca ativos físicos no centro das estratégias globais de investimento

Além dos data centers. toda a cadeia de fornecimento associada à infraestrutura digital se tornou alvo de aquisições

A inteligência artificial está promovendo uma mudança profunda no mercado global de fusões e aquisições. Depois de anos em que empresas de software, plataformas digitais e startups dominaram as atenções de investidores, o foco agora se desloca para os ativos responsáveis por sustentar a expansão da nova economia digital. Energia, capacidade computacional, conectividade e armazenamento passaram a ocupar posição central nas estratégias de crescimento de fundos, grupos estratégicos e grandes corporações.

A transformação reflete uma nova compreensão do mercado sobre onde estará a geração de valor nos próximos anos. Mais do que desenvolver algoritmos, a disputa passou a envolver o controle da infraestrutura necessária para operá-los em larga escala.

“O mercado percebeu que a inteligência artificial não depende apenas de algoritmos. Ela exige uma infraestrutura gigantesca para funcionar. Quem controla energia, processamento, conectividade e armazenamento passa a ocupar uma posição estratégica na nova economia digital”, afirma Jefferson Nesello, sócio-diretor da Zaxo M&A Partners, boutique especializada em fusões e aquisições que já participou de mais de 140 projetos, acumulando mais de R$ 7,5 bilhões em transações estruturadas.

A mudança já altera o mapa global de M&A. Data centers, fabricantes de componentes eletrônicos, fornecedores de infraestrutura elétrica, empresas de conectividade, sistemas de refrigeração e soluções de automação passaram a integrar as principais teses de investimento ligadas ao crescimento da inteligência artificial.

Segundo Nesello, o interesse não está restrito aos operadores de data centers. Toda a cadeia de fornecimento associada à infraestrutura digital se tornou potencial alvo de aquisições.

“Hoje, um investidor interessado em IA não olha apenas para os operadores de data centers. Existe uma cadeia inteira de empresas que se beneficia desse crescimento, desde fabricantes de painéis elétricos e sistemas de climatização até soluções de automação, monitoramento e eficiência energética”, disse.

Para o executivo, o momento guarda semelhanças com a histórica corrida do ouro do século XIX.

“A lógica lembra a corrida do ouro do século XIX. Nem sempre quem mais ganhou foi quem encontrou ouro, mas quem vendeu as pás, as ferramentas e a infraestrutura necessária para a exploração. A inteligência artificial está criando um fenômeno semelhante”, afirmou.

Os números ajudam a dimensionar o movimento. Dados da S&P Global Market Intelligence mostram que o mercado de data centers registrou em 2025 o maior volume de fusões e aquisições de sua história. Foram mais de US$ 69 bilhões movimentados em 113 transações concluídas ao longo do ano.

Para Leonardo Grisotto, sócio da Zaxo M&A Partners, a inteligência artificial inaugura um novo ciclo de consolidação empresarial semelhante aos observados anteriormente em setores como telecomunicações, internet, comércio eletrônico e computação em nuvem.

“Historicamente, os grandes ciclos de fusões e aquisições acompanham transformações estruturais da economia. Foi assim com telecomunicações, internet, e-commerce e computação em nuvem. A inteligência artificial parece estar inaugurando um novo capítulo. Para investidores, fundos e empresas em busca de crescimento, a pergunta já não é mais quem desenvolverá a próxima inteligência artificial, mas sim quem controlará a infraestrutura necessária para alimentá-la”, destacou.

Data centers se tornam ativos estratégicos

O avanço da inteligência artificial acelerou ainda mais a valorização dos data centers. Estudo da White & Case aponta que esses empreendimentos estão entre os ativos imobiliários e de infraestrutura de maior crescimento no mundo. Impulsionado pela computação em nuvem, pela IA e pela digitalização da economia, o setor deverá expandir sua capacidade global em cerca de 15% ao ano nos próximos anos.

Mesmo assim, especialistas avaliam que a oferta pode não acompanhar o ritmo de crescimento da demanda.

No Brasil, o cenário segue a mesma direção. Levantamento da consultoria Arizton Advisory & Intelligence estima que o mercado brasileiro de data centers movimentou aproximadamente US$ 6,7 bilhões em 2025. O país consolidou sua posição como principal polo de infraestrutura digital da América Latina, impulsionado pela presença de hyperscalers globais, pela expansão da computação em nuvem e pelo crescimento das aplicações de inteligência artificial.

“Estamos vendo uma mudança estrutural nas teses de investimento. Durante muitos anos, o valor estava concentrado no software. Agora, o mercado passou a olhar para a infraestrutura que sustenta esse software. Data centers, conectividade, energia e todos os seus adjacentes se tornaram ativos estratégicos”, afirmou Grisotto.

A corrida por ativos ligados à inteligência artificial já resultou em operações históricas. Em 2025, a Aligned Data Centers foi adquirida por cerca de US$ 40 bilhões em uma transação considerada a maior já realizada no setor. No mesmo período, a plataforma asiática AirTrunk foi comprada pela Blackstone e parceiros por aproximadamente US$ 16,1 bilhões, em um negócio frequentemente citado como um divisor de águas para o mercado global de infraestrutura digital.

Mais recentemente, em maio de 2026, a gestora I Squared Capital adquiriu dez data centers da Cogent nos Estados Unidos por US$ 225 milhões e anunciou um plano adicional de investimentos de US$ 1 bilhão para expansão e novas aquisições.

Energia ganha protagonismo

O crescimento acelerado dos data centers também elevou a importância do setor energético dentro das teses de investimento. Afinal, a expansão da inteligência artificial depende diretamente da disponibilidade de energia elétrica em larga escala.

Estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam que o consumo de eletricidade destinado aos data centers deverá superar 1.000 TWh em 2030, mais que o dobro dos cerca de 460 TWh registrados em 2024. Fontes renováveis, gás natural e energia nuclear aparecem como as principais alternativas para suprir essa demanda.

Segundo a agência, o consumo energético dos data centers cresceu 17% apenas em 2025, enquanto os centros dedicados à inteligência artificial avançaram em ritmo ainda mais acelerado.

Nos Estados Unidos, projeções da Administração de Informação de Energia (EIA) indicam novos recordes de consumo elétrico em 2026 e 2027. Pela primeira vez na história, a demanda comercial por eletricidade deverá superar a residencial, impulsionada principalmente pela expansão dos data centers voltados à IA.

“Em diversas regiões do mundo, a disponibilidade de energia já se tornou um fator decisivo para a instalação de novos data centers. Em alguns casos, a capacidade energética disponível vale tanto quanto a localização do empreendimento”, ressaltou Nesello.

No Brasil, a discussão ganha contornos particulares. A forte participação das fontes renováveis na matriz elétrica nacional passou a ser vista como um diferencial competitivo relevante para atrair investimentos internacionais ligados à infraestrutura digital.

“O Brasil reúne características muito atrativas para esse novo ciclo de investimentos. Temos uma matriz predominantemente renovável, oferta energética relevante e uma posição geográfica estratégica para atender a demanda da América Latina”, avaliou o executivo.

Além das grandes geradoras, especialistas identificam oportunidades em segmentos como eficiência energética, geração distribuída, infraestrutura elétrica e soluções voltadas à ampliação da capacidade operacional dos data centers.

Para Nesello, o movimento ainda está em seus estágios iniciais e deverá continuar alimentando uma intensa atividade de fusões e aquisições nos próximos anos.

“Estamos observando uma mudança estrutural nas teses de investimento. Durante décadas, o valor esteve concentrado no software. Agora, o mercado passou a enxergar que a infraestrutura é tão importante quanto a aplicação. Esse movimento deve continuar impulsionando operações de M&A nos próximos anos”, acrescentou.

Com a inteligência artificial avançando rapidamente para aplicações comerciais em larga escala, a infraestrutura necessária para mantê-la operando tornou-se um dos ativos mais valiosos da economia global. Na nova corrida tecnológica, o prêmio já não está apenas nos algoritmos, mas na capacidade de fornecer energia, processamento e conectividade para alimentá-los.

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