Economia PR - Ano de Mundial impulsiona segundo maior volume da série histórica

A história de que tudo para durante a Copa do Mundo e as eleições não resiste aos números, nem ao comportamento real do mercado. Em 2026, o calendário brasileiro impõe um teste estratégico ao mercado de fusões e aquisições.

De um lado, a Copa do Mundo, com 104 jogos distribuídos entre junho e julho. De outro, as eleições presidenciais, tradicionalmente marcadas por volatilidade e reprecificação de risco. No meio disso tudo, executivos, fundos e empresários precisam decidir: acelerar, pausar ou reposicionar seus movimentos.

A resposta, segundo dados históricos, não está na retração, mas na reorganização. Levantamentos da KPMG mostram que o M&A brasileiro não apenas resiste a anos turbulentos como, muitas vezes, cresce.

Em 2014, quando o país sediou a Copa e foi às urnas, foram registradas 818 transações, acima das 796 de 2013. Em 2018, ano exclusivamente eleitoral, o volume saltou para 967 operações, alta de 16,5%. Já em 2022, sob o efeito combinado de eleições e Copa no Catar, o mercado alcançou 1.728 transações, o segundo maior número da série histórica, atrás apenas de 2021.

Desse modo, o apetite não desaparece, ele muda de ritmo.

“O volume anual não colapsa, mas os números trimestrais mostram uma redistribuição evidente, com o segundo semestre tendo algum impacto. O apetite permanece, o que muda é o timing dos decisores”, afirma Jefferson Nesello, sócio-diretor da Zaxo M&A Partners, boutique especializada em fusões e aquisições que já participou de mais de 140 projetos, acumulando mais de R$ 7,5 bilhões em transações estruturadas.

O que se observa é uma corrida contra o calendário.

“Compradores estratégicos e fundos institucionais tendem a concentrar o início do processo no primeiro semestre, quando há maior previsibilidade. Já o segundo semestre, pressionado pelo ruído eleitoral, se torna um terreno mais cauteloso e seletivo para iniciar uma transação”, diz. 

Em 2022, esse comportamento ficou evidente: o primeiro trimestre registrou 553 transações, enquanto o quarto trimestre caiu para 344. Mais do que uma desaceleração estrutural, trata-se de uma pausa tática.

Mas, se o calendário impõe freios, ele também abre oportunidades.

“É a mesma moeda com duas faces. Para quem está preparado, o ruído afasta competidores menos qualificados e cria janelas de entrada com valuations mais racionais. Para quem não se planejou, vira desculpa para adiar decisões que já deveriam ter sido tomadas”, diz Leonardo Grisotto, sócio da Zaxo M&A Partners.

A leitura encontra respaldo no comportamento recente do capital estrangeiro. Só em janeiro de 2026, o fluxo internacional para a bolsa brasileira superou R$ 26 bilhões, mais do que todo o volume registrado em 2025. O movimento indica que, mesmo diante da incerteza política, há apetite por ativos descontados.

Ainda assim, o custo de capital segue como variável crítica. Projeções de mercado apontam a Selic entre 12% e 14% ao longo de 2026, patamar que pressiona valuations e amplia a distância entre expectativa de compradores e vendedores. Dessa forma, mecanismos como earn-out, que vinculam parte do pagamento ao desempenho futuro, passam a ganhar espaço para viabilizar acordos.

“O vendedor quer ser valorizado pelo potencial futuro; o comprador desconta o presente a uma taxa mais elevada. O earn-out funciona como uma ponte sobre esse valuation gap”, explica.

A Copa do Mundo, por sua vez, tem um impacto mais simbólico do que estrutural, mas não irrelevante. Durante os 39 dias de competição, reuniões críticas tendem a ser evitadas, especialmente em datas de jogos decisivos da seleção brasileira.

“O impacto existe, mas é pontual. Processos não param por futebol. O que acontece é uma redução de atenção dos decisores em momentos específicos, principalmente em fases eliminatórias”, afirma o executivo.

O efeito mais relevante, porém, está na soma dos fatores. Em 2026, o país combina Copa, eleições, dez feriados nacionais e nove pontos facultativos, muitos em dias úteis. Para um mercado que depende de decisões rápidas e alinhamento entre múltiplos stakeholders, a escassez de atenção executiva se torna um ativo crítico.

“Em M&A, o timing é determinante. Não é sobre as pessoas assistirem aos jogos, mas sobre estarem lidando com múltiplas incertezas ao mesmo tempo. Isso naturalmente desacelera processos”, diz.

Nesse ambiente, alguns setores sentem mais. Infraestrutura, saúde suplementar, construção e varejo alavancado tendem a reagir com maior sensibilidade ao ciclo político. Já áreas mais resilientes, como tecnologia B2B, energia contratada e saúde, seguem atraindo capital.

Relatório recente da Bain & Company aponta, inclusive, que períodos de maior incerteza tendem a favorecer empresas com forte geração de caixa e baixa alavancagem, além de impulsionar movimentos de consolidação no middle market.

Para a Zaxo, esse é justamente o ponto de inflexão.

“Empresas com caixa, operação profissionalizada e receita recorrente tendem a se beneficiar desse ruído. Ele filtra compradores menos preparados e deixa a mesa mais limpa para quem tem convicção estratégica”, afirma.

O que Copa do Mundo e eleições fazem não é travar o mercado, é separar perfis. De um lado, os que aguardam previsibilidade absoluta para agir; de outro, os que entendem que, em M&A, o melhor momento raramente é o mais confortável.

“Nosso conselho é direto: não espere o segundo semestre. Quem inicia um processo agora ainda tem uma janela real antes do recrudescimento do ruído eleitoral. O macro não cancela bons negócios. Ele penaliza os mal preparados”, conclui.

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