Economia PR - Infraestrutura para IA movimenta US$ 69 bi e vira alvo preferido de investidores

A explosão da inteligência artificial criou uma das maiores corridas por infraestrutura desde a expansão global da internet. Se, nos últimos anos, investidores disputavam empresas de software, plataformas digitais e startups de tecnologia, em 2026 o foco mudou.

Agora, os ativos mais estratégicos passaram a ser aqueles capazes de sustentar a próxima fase da IA: energia, processamento e capacidade de armazenamento.

“O movimento já altera o mapa global de fusões e aquisições (M&A). Data centers, fabricantes de componentes, fornecedores de conectividade, tecnologia de refrigeração, infraestrutura elétrica e sistemas de energia passaram a ocupar posição prioritária nas teses de investimento de fundos, grupos estratégicos e grandes corporações”, afirma Jefferson Nesello, sócio-diretor da Zaxo M&A Partners, boutique especializada em fusões e aquisições que já participou de mais de 140 projetos, acumulando mais de R$ 7,5 bilhões em transações estruturadas.

Desse modo, o interesse dos investidores não se restringe aos operadores de data centers, toda a cadeia produtiva associada à infraestrutura digital passou a ser alvo potencial de operações. Entram nessa lista fabricantes de painéis elétricos, empresas de cabeamento estruturado, fornecedores de sistemas de climatização, integradores de infraestrutura crítica, fabricantes de componentes eletrônicos, empresas de automação industrial, segurança física, monitoramento e eficiência energética.

“A lógica é semelhante à corrida do ouro do século XIX. Nem sempre quem enriqueceu foi quem procurou ouro. Muitas vezes foram os fornecedores ferramentas e infraestrutura para exploração”, compara Nesello.

Para se ter uma ideia, a corrida global por infraestrutura para inteligência artificial levou somente o mercado de data centers a registrar um recorde histórico de fusões e aquisições em 2025.

Segundo dados da S&P Global Market Intelligence, o setor movimentou mais de US$ 69 bilhões em operações de M&A ao longo do ano, distribuídas em 113 transações concluídas.

“Historicamente, os grandes ciclos de fusões e aquisições acompanham transformações estruturais da economia. Foi assim com telecomunicações, internet, e-commerce e computação em nuvem. A inteligência artificial parece estar inaugurando um novo capítulo. Para investidores, fundos e empresas em busca de crescimento, a pergunta já não é mais quem desenvolverá a próxima inteligência artificial, mas sim quem controlará a infraestrutura necessária para alimentá-la”, destaca Leonardo Grisotto, sócio da Zaxo M&A Partners.

Análise da White & Case aponta que os data centers estão entre os ativos imobiliários e de infraestrutura que mais crescem no mundo, impulsionados pela expansão da computação em nuvem, da inteligência artificial e dos serviços digitais. A capacidade global do setor deve avançar em torno de 15% ao ano nos próximos anos, ritmo que, ainda assim, pode não ser suficiente para acompanhar a demanda crescente.

No Brasil, a transformação também é visível. Segundo estudo da consultoria Arizton Advisory & Intelligence, o mercado brasileiro de data centers movimentou aproximadamente US$ 6,7 bilhões em 2025, se consolidando como principal hub de infraestrutura digital da América Latina, pela presença de hyperscalers globais, expansão da computação em nuvem e crescimento das aplicações de inteligência artificial..

Para os especialistas em M&A, esse cenário cria uma nova dinâmica de mercado.

“Estamos vendo uma mudança estrutural nas teses de investimento. Durante muitos anos, o valor estava concentrado no software. Agora, o mercado passou a olhar para a infraestrutura que sustenta esse software. Data centers, conectividade, energia e todos os seus adjacentes se tornaram ativos estratégicos”, afirma Grisotto.

O apetite dos investidores pela infraestrutura que sustenta a inteligência artificial já produziu operações históricas. Em 2025, a Aligned Data Centers foi vendida por cerca de US$ 40 bilhões em uma transação considerada a maior da história do setor, reunindo investidores diretamente ligados ao ecossistema global de IA.

Outro marco foi a aquisição da plataforma asiática de data centers AirTrunk pela Blackstone e parceiros por cerca de US$ 16,1 bilhões, operação frequentemente citada como um divisor de águas para o mercado global de infraestrutura digital.

Em maio de 2026, a gestora I Squared Capital adquiriu dez data centers da Cogent nos Estados Unidos por US$ 225 milhões e anunciou mais US$ 1 bilhão para expansão e novas aquisições.

E para sustentar os Data Centers e toda a utilização da IA, precisa-se de energia. A Agência Internacional de Energia estima que a geração elétrica destinada a abastecer data centers deverá ultrapassar 1.000 TWh em 2030, contra cerca de 460 TWh registrados em 2024. Renováveis, gás natural e energia nuclear aparecem como as principais fontes para atender essa nova demanda.

Dados da IEA mostram que o consumo de energia dos data centers cresceu 17% apenas em 2025, enquanto a demanda dos centros dedicados à inteligência artificial avançou ainda mais rapidamente.

Apenas nos Estados Unidos, a Administração de Informação de Energia (EIA) projeta novos recordes de consumo elétrico em 2026 e 2027, impulsionados principalmente pela expansão de data centers voltados à inteligência artificial. Pela primeira vez na história, o consumo comercial de energia deve superar o residencial no país.

Segundo Jefferson Nesello, em várias regiões do mundo, a disponibilidade energética já se tornou fator decisivo para a escolha de novos investimentos.

No Brasil, o tema também ganha relevância, embora com características próprias. A matriz elétrica nacional, fortemente baseada em fontes renováveis, tornou-se um diferencial competitivo importante para atrair investimentos internacionais. Além disso, a abundância de recursos energéticos e a posição geográfica favorável colocam o país em destaque na América Latina.

“Quando falamos de energia, não estamos olhando apenas para as grandes geradoras. Existem oportunidades relevantes em eficiência energética, geração distribuída, infraestrutura elétrica e soluções que permitam suportar a expansão dos data centers. É um mercado que tende a ganhar cada vez mais protagonismo nas discussões de M&A”, avalia o diretor da Zaxo.

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